OS PIONEIROS partiram de Salvador, capital da Bahia, com destino ao recôncavo baiano. Foram por mar. Depois que navegaram algumas horas, passaram para um grande rio, chamado Paraguassu. Aportaram em um lugar onde puseram o primeiro marco de uma fazenda, hoje a Cachoeira heróica, que foi a primeira cidade do Brasil a dar o grito de independência.
Nos tempos atuais resiste heroicamente às enchentes do Paraguassu. Do outro lado do rio puseram outro marco onde mais tarde nasceu a bela cidade de S. Félix. Depois eles subiram, desbravando a mata, a serra e do alto contemplaram o rio que corria entre duas terras bravias, sem poderem imaginar que mais tarde seria o mais lindo espetáculo da Bahia: contemplar do alto a grande ponte sobre um rio, que tem em suas margens duas lindas cidades — S. Félix e Cachoeira.
Depois os pioneiros seguiram sua árdua jornada, pois tinham de abrir caminho à foice e a machado. Plantaram um marco no lugar onde hoje é Muritiba. Depois de muito andarem puseram outro marco no lugar que se denomina cidade de Governador Mangabeira. Ali armaram barracas e fizeram fogueiras, dispostos a descansarem alguns dias, a fim de armazenarem novas energias. Prosseguiram a jornada, que era lenta porque, como já disse, tinham que abrir caminho à foice e a machado.
Três dias depois chegaram a uma grande e bela planície. Seus corações exaltaram, quando eles viram, no meio de pequenos arbustos, uma grande cruz de madeira, cujas dimensões se assemelhavam com a Cruz do Gólgota. Era majestosa e bela. Era mais que tudo misteriosa. "Qual seria a mão que colocou aquela cruz ali?" Eles se perguntavam uns aos outros, admirados.
Aproximaram-se da cruz, tiveram a surpresa de verificarem que não era feita pela mão do homem. Era uma cruz feita pela natureza. Era uma árvore, que nasceu e cresceu em forma de cruz. Frei Afonso, o jesuíta que acompanhava os pioneiros, disse: "neste lugar não há ninguém, portanto esta cruz pertence às almas", e batizou o lugar com o nome de CRUZ DAS ALMAS. Dali mais tarde surgiu a grande cidade de Cruz das Almas, alto ponto no progresso do Estado da Bahia. Na mencionada cruz Frei Afonso celebrou a primeira missa que se ouviu naquelas planícies.
Dias depois apareceu um grupo de índios, que tinham sua aldeia do lado dos Poções. Eram mansos. Contaram a história da Cruz. segundo a qual na tribo, séculos passados, existia uma linda índia, filha do cacique. Era querida de todos. Seu nome era Iracy. Só uma santa podia ter um coração tão magnânimo. Cuidava dos doentes, protegia as crianças, dava assistência aos velhos e alimentava os pássaros. Os guerreiros da tribo a disputavam. Por fim ela ficou noiva de Ubiratan, o grande e viril guerreiro. Porém outra índia, por inveja, pois amava Uribatan, jurou vingança. Uma noite. Iracy sonhou com um homem chamado Jesus Cristo, que tinha uma grande cruz, e que lhe ensinou verdades divinas e disse que não comessem mais carne humana, que era pecado. No dia seguinte, Iracy contou o sonho e pregou a palavra de Deus. Todos a ouviram maravilhados. A partir daquele dia deixaram de comer carne humana. A invejosa índia, cujo nome era Jupiranha, reuniu um grupo de índios e lhes disse que Iracy estava com espírito maligno, que era preciso matá-la, para não contaminar a tribo, com maus espíritos.
A malvada atraiu a pobre Iracy a um lugar distante e com seus asseclas a mataram a pauladas. Já tinham uma onça presa para depois entregarem o corpo para a onça, a fim de que a mesma levasse a culpa. Porém os gritos da pobre Iracy foram ouvidos, por alguns guerreiros, que estavam caçando e correram incontinenti ao lugar. Ali mesmo fizeram justiça. Mataram Jupiranha, do mesmo modo que eles mataram Iracy. Levaram os asseclas de Jupiranha para eles dizerem a verdade. Enterraram o corpo da malvada em um lugar distante.
A sua alma virou um pássaro agoureiro, que nas noites sem lua, quando as estrelas se escondem, como que amedrontadas, põe-se a gritar: Canalha... Canalha... Canalha... Justamente o que ela fora em vida.
Na sepultura de Iracy nasceu a grande árvore em forma de cruz. Não se sabe como a Cruz desapareceu misteriosamente. Os índios disseram que Tupan a levou junto com o corpo de Iracy para as planícies divinas. Mas no lugar nasceu outra Cruz. A CRUZ DAS ALMAS, cidade que é tão linda e tão poética, como foi Iracy.
Princesa Kee-Kow (contos). KOSNICK, Maria Chiacchio
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Feira de Santana
ERA uma linda princesa índia, de longos cabelos luzidios, olhos negros e corpo que parecia de uma Vênus. Seu nome era Feira.
Usava grandes argolas de ouro, que em conjunto com o seu diadema, de pedras preciosas e penas, davam expressão à sua personalidade sertaneja. Sua saia era longa, feita de um tecido de fibra de bananeira e contas de mulungu. Era querida de toda a tribo. Quando cantava, a sua voz suave e bela atraía os pássaros, com a voz do Uiarapuru. Seu noivo era um príncipe índio, chamado Jiquié. Habitava a muitas luas distante da sua gleba, porém ele vencia as asperezas do sertão, viajando por muitas semanas, para ver a sua amada.
A princesa Feira armava a sua rede na sombra dos umbuzeiros e saboreava seus frutos deliciosos. O vento morno e suave a embalava nas noites maravilhosas e perfumadas do sertão. Naquele tempo não havia seca, porque o sertão não estava desnudo. A mão do homem ainda não tinha decepado as árvores. O sertão era verde como a esperança. Coberto de flores, como um divino jardim. Quando a noite descia, os índios acendiam a grande fogueira, para espantar os mosquitos, as cobras e as onças, e também se aquecerem do frio, que descia com a noite, enquanto uma flauta índia tocava melodiosamente.
Feira costumava ir pelos campos, colher flores. Quando ela viu o primeiro homem branco que pisou naquelas glebas, um padre jesuíta, que estava sendo atacado por um jaguar negro, rápida, atirou uma flecha no coração da fera, matando-a. Era fêmea. O macho, que tudo viu, jurou vingança. Feira levou o padre jesuíta, que se chamava Frei Gonsalo, para a taba. O pajé curou-lhe os ferimentos feitos pela onça. O jesuíta batizou os índios. À Feira acrescentou-lhe o nome de Santana. Passou a chamar-se, pois, Feira de Santana. O cacique, seu pai, foi batizado com o nome de Salvador e a mãe com o nome de Bahia.
O jesuíta avisou que uma expedição estava a caminho dali, desbravando as matas. Os índios estavam preparando grandes festas e danças, para receber os visitantes. Porém o jaguar negro não parava de rondar a taba, em busca de oportunidade para vingar a companheira abatida pela princesa índia. Feira de Santana não imaginava que estava sendo observada pela fera, que se ocultava nas moitas e tinha sempre os seus olhos cintilantes, injetados de ódio, dirigidos à linda princesa índia.
O dia fatal chegou quando Feira de Santana, distanciando-se da taba, foi em busca de flores, para ornamentar a aldeia, em homenagem aos visitantes, que não tardariam a chegar. Rápido, o terrível jaguar pulou sobre a pobre Feira de Santana. Seus gritos foram ouvidos por alguns índios, que partiram em seu socorro e ainda conseguiram matar o jaguar. Porém era tarde demais. Levaram a pobre índia, quase morta, para a taba. Frei Gonsalo, o jesuíta, administrou-lhe os últimos sacramentos. A expedição chegou ainda a tempo de ouvir as últimas palavras de Feira de Santana, e que foram: "Não chorem, não se preocupem, que eu nascerei outra vez".
Seu último sopro de vida foi nos braços de sua mãe Bahia. A bela Feira de Santana partiu para as glebas divinas. Cumpriu, no entanto, a promessa. Nasceu outra vez. Não nasceu mais a princesa índia. Nasceu uma cidade que tem o seu nome... e que é o orgulho da Bahia!... que é um poema plantado no sertão... ela nasceu FEIRA DE SANTANA, a princesa do sertão! A mais linda cidade da Bahia, com esplendor e beleza. Nas calçadas de suas ruas pisam as mais lindas moças do Brasil.
Tive a felicidade de viver dois dias e duas noites em Feira de Santana. Guardo em minha lembrança aquele pequeno espaço de tempo, como uma jóia de inestimável valor. Também guardo em minha lembrança a sua feira, rica em tudo, que parece mais uma reunião de bravos sertanejos, para uma grande comemoração. Vi na grande feira tudo que podia seduzir os olhos e o estômago. Também vi e ouvi os sons plangentes de uma viola, tocada por um menino cego, que parecia um lamento de dor dirigido à bela índia morta. As tão discutidas Noites da Arábia não podem ser mais lindas que as noites de Feira de Santana. Um vento que parece divino sopra o calor, deixando que a temperatura desça. No ar há qualquer cousa de mistério, que nos convida a amar Feira de Santana. Eu dormi envolta nesse mistério e sonhei com a linda princesa índia, Feira de Santana, que me embalava em sua rede e cantava para mim.
Princesa Kee-Kow (contos). KOSNICK, Maria Chiacchio
Usava grandes argolas de ouro, que em conjunto com o seu diadema, de pedras preciosas e penas, davam expressão à sua personalidade sertaneja. Sua saia era longa, feita de um tecido de fibra de bananeira e contas de mulungu. Era querida de toda a tribo. Quando cantava, a sua voz suave e bela atraía os pássaros, com a voz do Uiarapuru. Seu noivo era um príncipe índio, chamado Jiquié. Habitava a muitas luas distante da sua gleba, porém ele vencia as asperezas do sertão, viajando por muitas semanas, para ver a sua amada.
A princesa Feira armava a sua rede na sombra dos umbuzeiros e saboreava seus frutos deliciosos. O vento morno e suave a embalava nas noites maravilhosas e perfumadas do sertão. Naquele tempo não havia seca, porque o sertão não estava desnudo. A mão do homem ainda não tinha decepado as árvores. O sertão era verde como a esperança. Coberto de flores, como um divino jardim. Quando a noite descia, os índios acendiam a grande fogueira, para espantar os mosquitos, as cobras e as onças, e também se aquecerem do frio, que descia com a noite, enquanto uma flauta índia tocava melodiosamente.
Feira costumava ir pelos campos, colher flores. Quando ela viu o primeiro homem branco que pisou naquelas glebas, um padre jesuíta, que estava sendo atacado por um jaguar negro, rápida, atirou uma flecha no coração da fera, matando-a. Era fêmea. O macho, que tudo viu, jurou vingança. Feira levou o padre jesuíta, que se chamava Frei Gonsalo, para a taba. O pajé curou-lhe os ferimentos feitos pela onça. O jesuíta batizou os índios. À Feira acrescentou-lhe o nome de Santana. Passou a chamar-se, pois, Feira de Santana. O cacique, seu pai, foi batizado com o nome de Salvador e a mãe com o nome de Bahia.
O jesuíta avisou que uma expedição estava a caminho dali, desbravando as matas. Os índios estavam preparando grandes festas e danças, para receber os visitantes. Porém o jaguar negro não parava de rondar a taba, em busca de oportunidade para vingar a companheira abatida pela princesa índia. Feira de Santana não imaginava que estava sendo observada pela fera, que se ocultava nas moitas e tinha sempre os seus olhos cintilantes, injetados de ódio, dirigidos à linda princesa índia.
O dia fatal chegou quando Feira de Santana, distanciando-se da taba, foi em busca de flores, para ornamentar a aldeia, em homenagem aos visitantes, que não tardariam a chegar. Rápido, o terrível jaguar pulou sobre a pobre Feira de Santana. Seus gritos foram ouvidos por alguns índios, que partiram em seu socorro e ainda conseguiram matar o jaguar. Porém era tarde demais. Levaram a pobre índia, quase morta, para a taba. Frei Gonsalo, o jesuíta, administrou-lhe os últimos sacramentos. A expedição chegou ainda a tempo de ouvir as últimas palavras de Feira de Santana, e que foram: "Não chorem, não se preocupem, que eu nascerei outra vez".
Seu último sopro de vida foi nos braços de sua mãe Bahia. A bela Feira de Santana partiu para as glebas divinas. Cumpriu, no entanto, a promessa. Nasceu outra vez. Não nasceu mais a princesa índia. Nasceu uma cidade que tem o seu nome... e que é o orgulho da Bahia!... que é um poema plantado no sertão... ela nasceu FEIRA DE SANTANA, a princesa do sertão! A mais linda cidade da Bahia, com esplendor e beleza. Nas calçadas de suas ruas pisam as mais lindas moças do Brasil.
Tive a felicidade de viver dois dias e duas noites em Feira de Santana. Guardo em minha lembrança aquele pequeno espaço de tempo, como uma jóia de inestimável valor. Também guardo em minha lembrança a sua feira, rica em tudo, que parece mais uma reunião de bravos sertanejos, para uma grande comemoração. Vi na grande feira tudo que podia seduzir os olhos e o estômago. Também vi e ouvi os sons plangentes de uma viola, tocada por um menino cego, que parecia um lamento de dor dirigido à bela índia morta. As tão discutidas Noites da Arábia não podem ser mais lindas que as noites de Feira de Santana. Um vento que parece divino sopra o calor, deixando que a temperatura desça. No ar há qualquer cousa de mistério, que nos convida a amar Feira de Santana. Eu dormi envolta nesse mistério e sonhei com a linda princesa índia, Feira de Santana, que me embalava em sua rede e cantava para mim.
Princesa Kee-Kow (contos). KOSNICK, Maria Chiacchio
domingo, 16 de agosto de 2009
A Lenda do Milho
Para os maias, como também para os astecas, o milho foi o principal alimento, foi a fonte do progresso e das riquezas e foi até. . . um deus. Um deus verde, que eles chamavam de YUM KAAX: seus dentes eram como os grãos, seus cabelos como os dourados cabelos do milho. . .

No Brasil, os índios Parecis contavam que Ainotarê, sentindo que a morte se aproximava, chamou seu filho Caleitô e manifestou-lhe o desejo de ser enterrado vivo no meio de uma roça. Três dias depois uma planta brotaria de sua cova, e logo rebentaria em sementes. Não sendo comidas, mas replantadas, elas brotariam novamente e, por fim, poderiam alimentar todo o povo. E a lenda conta que os indígenas assim fizeram e foi assim que surgiu o milho.
Os índios Carajás, da Ilha do Bananal contam que lmaerô e Denaquê eram duas irmãs índias jovens e bonitas. Certa vez, lmaerô, olhando no céu a estrela Vésper, chamada "Taína Can", desejou tê-la perto de si. A estrela atendeu seu pedido e desceu, mas sob a forma de um velhinho de barbas brancas. Vendo-o, lmaerô repudiou-o. Taína Can casou-se então, com a meiga e boa Denaquê. Para sustentá-la, fez um pequeno roçado e plantou nele algumas sementes maravilhosas que os Carajás ainda não conheciam, mas que ele, por magia, tirava das águas do Rio Araguaia. . . E entre estas sementes estavam as do milho. . . Mas, certo dia, como Taína Can estivesse demorando para voltar à casa, Denaquê saiu à sua procura. Que surpresa! Em vez do velho de barbas e cabelos brancos, ela encontrou a trabalhar, um belíssimo jovem, cheio de forças e de vida! Correu a abraçá-lo, e os dois, felizes, voltaram para casa. — E foi assim que a nação Carajá aprendeu com Taína Can a plantar o milho e outros alimentos que antes não conhecia. . .

No Brasil, os índios Parecis contavam que Ainotarê, sentindo que a morte se aproximava, chamou seu filho Caleitô e manifestou-lhe o desejo de ser enterrado vivo no meio de uma roça. Três dias depois uma planta brotaria de sua cova, e logo rebentaria em sementes. Não sendo comidas, mas replantadas, elas brotariam novamente e, por fim, poderiam alimentar todo o povo. E a lenda conta que os indígenas assim fizeram e foi assim que surgiu o milho.
Os índios Carajás, da Ilha do Bananal contam que lmaerô e Denaquê eram duas irmãs índias jovens e bonitas. Certa vez, lmaerô, olhando no céu a estrela Vésper, chamada "Taína Can", desejou tê-la perto de si. A estrela atendeu seu pedido e desceu, mas sob a forma de um velhinho de barbas brancas. Vendo-o, lmaerô repudiou-o. Taína Can casou-se então, com a meiga e boa Denaquê. Para sustentá-la, fez um pequeno roçado e plantou nele algumas sementes maravilhosas que os Carajás ainda não conheciam, mas que ele, por magia, tirava das águas do Rio Araguaia. . . E entre estas sementes estavam as do milho. . . Mas, certo dia, como Taína Can estivesse demorando para voltar à casa, Denaquê saiu à sua procura. Que surpresa! Em vez do velho de barbas e cabelos brancos, ela encontrou a trabalhar, um belíssimo jovem, cheio de forças e de vida! Correu a abraçá-lo, e os dois, felizes, voltaram para casa. — E foi assim que a nação Carajá aprendeu com Taína Can a plantar o milho e outros alimentos que antes não conhecia. . .
A Libertação dos Ventos
Há muitos e muitos séculos, o mar era sempre calmo. . . Os ventos impetuosos, que agitam as ondas, viviam escondidos no fundo do mar, num grande palácio de cristal. Ali dançavam em torno de sua rainha, que se chamava por isso: Rosa dos Ventos.
Um dia uma andorinha, atravessando o mar, encontrou uma grande procelária, o pássaro que vive entre os escolhos, e lhe contou que os pássaros, na terra, fazem seus ninhos nas árvores.
- Oh! - disse a procelária - Isso me parece estranho. Como fazem?
Nisso, a andorinha, já havia ido embora. A procelária meditou sobre as palavras da andorinha e disse para si mesma:
- Será que devo ser inferior aos pássaros terrestres? Será que somente eu devo fazer o ninho sobre as duras rochas?
E decidiu construir o ninho sobre uma árvore. Mas, como sempre vivera no mar, não conhecia nada além dos mastros dos navios. Estava persuadida de que a andorinha fizera alusão a um daqueles mastros. Então pousou sobre o mastro do primeiro navio que passou, para fazer seu ninho, mas os marinheiros mandaram-na embora.
"Não há felicidade para os pássaros marinhos", pensou a procelária e retirou-se enfurecida.
Passou um segundo navio, O pássaro ali pousou, mas foi tocado e assim, na terceira vez, na quarta. .
A procelária estava terrivelmente irada. . . Tratarem daquele modo uma figura tão importante? Vingar-se-ia infalivelmente.
Sabia onde era o palácio dos ventos. No centro do oceano Pacífico desponta uma pequena cúpula de cristal. É a torre do palácio dos ventos. Ali pousou a procelária e piou fortemente.
- Quem pia? - gritou de baixo o vento oriental.
- Sou eu, a procelária.
- Que deseja?
- Queria falar com a rainha!
A rainha dos ventos está sempre de bom humor, portanto, não se fêz de rogada para surgir em meio ao mar, onde estava a procelária.
- Majestade, disse o pássaro, tenho alimentado sempre muita amizade por vós. Trouxe sempre ao vosso palácio as notícias do mundo...
- Eu te agradeço...
- Agora quero dar-vos um conselho. O vosso palácio é certamente belo e principesco, mas deveis concordar que, quando daí não se sai mais, torna-se uma prisão. Vós e os vossos ventos podeis nadar como os peixes, voar como os pássaros, caminhar como os homens e, no entanto, estais sempre reclusos. Sai, girai pelo mundo afora. Vereis cidades imensas, regiões alegres, sereis venerada e temida.
A Rosa dos Ventos, colocou a cabeça entre as mãos e conservou-se por alguns minutos, meditando.
- Tens razão, disse por fim. É verdade, somos uns grandes tolos a correr de cá para lá, como loucos, num pequeno espaço, todo santo dia. . .O imenso oceano será nosso palácio e o mundo o nosso reino. . . Até outra vista, procelária, obrigada pelo conselho.
Desde aquele dia os ventos do Norte, os ventos do Sul, os do Oriente e os do Ocidente, agitam os mares e os continentes, e sua rainha os envia para aqui e para ali.
E sobre as ondas, os grandes navios são rebentados como punhados de nozes; são atirados para se despedaçarem sobre os escolhos.
Lá, onde a tempestade se enfurece, lá onde é maior o perigo, aparece a procelária e seu grito torna ainda mais sinistro o fragor da tormenta.
Portanto, onde o pássaro negro de longas asas aparece, ele é considerado sinal de tempestade, e é temido pelos marujos de todos os mares.
Esta é a lenda sobre a libertação dos ventos, cujas origens se perdem na noite do tempo.
Um dia uma andorinha, atravessando o mar, encontrou uma grande procelária, o pássaro que vive entre os escolhos, e lhe contou que os pássaros, na terra, fazem seus ninhos nas árvores.
- Oh! - disse a procelária - Isso me parece estranho. Como fazem?
Nisso, a andorinha, já havia ido embora. A procelária meditou sobre as palavras da andorinha e disse para si mesma:
- Será que devo ser inferior aos pássaros terrestres? Será que somente eu devo fazer o ninho sobre as duras rochas?
E decidiu construir o ninho sobre uma árvore. Mas, como sempre vivera no mar, não conhecia nada além dos mastros dos navios. Estava persuadida de que a andorinha fizera alusão a um daqueles mastros. Então pousou sobre o mastro do primeiro navio que passou, para fazer seu ninho, mas os marinheiros mandaram-na embora.
"Não há felicidade para os pássaros marinhos", pensou a procelária e retirou-se enfurecida.
Passou um segundo navio, O pássaro ali pousou, mas foi tocado e assim, na terceira vez, na quarta. .
A procelária estava terrivelmente irada. . . Tratarem daquele modo uma figura tão importante? Vingar-se-ia infalivelmente.
Sabia onde era o palácio dos ventos. No centro do oceano Pacífico desponta uma pequena cúpula de cristal. É a torre do palácio dos ventos. Ali pousou a procelária e piou fortemente.
- Quem pia? - gritou de baixo o vento oriental.
- Sou eu, a procelária.
- Que deseja?
- Queria falar com a rainha!
A rainha dos ventos está sempre de bom humor, portanto, não se fêz de rogada para surgir em meio ao mar, onde estava a procelária.
- Majestade, disse o pássaro, tenho alimentado sempre muita amizade por vós. Trouxe sempre ao vosso palácio as notícias do mundo...
- Eu te agradeço...
- Agora quero dar-vos um conselho. O vosso palácio é certamente belo e principesco, mas deveis concordar que, quando daí não se sai mais, torna-se uma prisão. Vós e os vossos ventos podeis nadar como os peixes, voar como os pássaros, caminhar como os homens e, no entanto, estais sempre reclusos. Sai, girai pelo mundo afora. Vereis cidades imensas, regiões alegres, sereis venerada e temida.
A Rosa dos Ventos, colocou a cabeça entre as mãos e conservou-se por alguns minutos, meditando.
- Tens razão, disse por fim. É verdade, somos uns grandes tolos a correr de cá para lá, como loucos, num pequeno espaço, todo santo dia. . .O imenso oceano será nosso palácio e o mundo o nosso reino. . . Até outra vista, procelária, obrigada pelo conselho.
Desde aquele dia os ventos do Norte, os ventos do Sul, os do Oriente e os do Ocidente, agitam os mares e os continentes, e sua rainha os envia para aqui e para ali.
E sobre as ondas, os grandes navios são rebentados como punhados de nozes; são atirados para se despedaçarem sobre os escolhos.
Lá, onde a tempestade se enfurece, lá onde é maior o perigo, aparece a procelária e seu grito torna ainda mais sinistro o fragor da tormenta.
Portanto, onde o pássaro negro de longas asas aparece, ele é considerado sinal de tempestade, e é temido pelos marujos de todos os mares.
Esta é a lenda sobre a libertação dos ventos, cujas origens se perdem na noite do tempo.
A Lenda da Vitória-Régia

Regozijava em festas a aldeia dos maués. Ao som de torés, maracás e outros instrumentos musicais, os guerreiros dançavam ao centro da taba iluminada de archotes, que queimavam as mais perfumadas rezinas.
Mulheres serviam as bebidas caxiri, cauim e carne mo-queada.
A razão de tanta alegria era a celebração de uma caçada feliz. O cacique Canuqué reuniu tribos vizinhas e amigas para festejarem o acontecimento.
No meio de tanto divertimento, apenas a bela Nacaíra, filha do cacique, se sentia triste e solitária. Sempre fora disputada pelos mais formosos e destemidos guerreiros, mas a nenhum deles dava o menor olhar ou gesto de esperança. Seu coração puro não pertencia a homens que penduravam no pescoço dentes de inimigos mortos em batalhas, numa atitude de bravura e heroísmo.
Quando pequenina, Nacaíra gostava de ouvir as histórias de Janá, velha feiticeira, que conhecia os poderes misteriosos das plantas, a origem dos rios, a das serras, e sabia os nomes de muitas estrelas do céu. Contara-lhe uma vez Janá que a Lua era um guerreiro branco, belo e poderoso. Nas noites de luar descia à Terra para se casar com uma jovem; depois a levava para o céu, transformando-a em brilhante estrela.
Nacaíra ouvia em silêncio, olhinhos presos no espaço infinito.
— Como seria bom viver lá no alto, transformada em estrelinha e olhar a terra pequenina e distante. . .
As palavras da velha Janá ficaram na mente de Nacaíra, que, mesmo depois de jovem e dotada de surpreendente beleza, jamais se interessou pelos moços da aldeia ou de outras tribos.
Nas noites de luar, saía pelas matas fitando o céu, braços erguidos como a querer alcançar o guerreiro bem-amado. Naquela noite de festas, ela deixou as danças e cantos, as custosas bebidas e cheirosos assados e pôs-se a caminhar pela floresta.
No meio do céu a Lua brilhava tranqüila. Tudo era sossego. Apenas o vento, que brincava nas árvores, trazia o rumor distante das danças e cantos da taba. Lá longe, no azul sem-fim, as estrelas eram como tochinhas brilhando serenas. Nacaíra encaminhou-se para a lagoa. Viu refletida nas águas a imagem querida da Lua. Boiava de mansinho como se dela se aproximasse sempre mais. Pensando no jovem branco que, por certo, vinha buscá-la, a indígena correu ao seu encontro, atirando-se nas águas profundas.
Ninguém mais viu Nacaíra, a bela princesa dos maués. Mas o luar, única testemunha daquela cena, se condoeu da infeliz indiazinha; em vez de transformá-la numa estrela do céu, transformou-a em Estrela das Águas.
No dia seguinte, quando os maués andaram em busca de Nacaíra, encontraram no lago uma flor de radiante beleza, de um suave tom rosa pálido e de perfume delicado, semelhante ao do fruto maduro. Era a Vitória-Régia que, desde então passou a enfeitar a superfície dos grandes lagos e rios.
E contam que, nas noites de luar, ela abre de mansinho as suas pétalas acetinadas para receber a luz e carícias da Lua.
Mulheres serviam as bebidas caxiri, cauim e carne mo-queada.
A razão de tanta alegria era a celebração de uma caçada feliz. O cacique Canuqué reuniu tribos vizinhas e amigas para festejarem o acontecimento.
No meio de tanto divertimento, apenas a bela Nacaíra, filha do cacique, se sentia triste e solitária. Sempre fora disputada pelos mais formosos e destemidos guerreiros, mas a nenhum deles dava o menor olhar ou gesto de esperança. Seu coração puro não pertencia a homens que penduravam no pescoço dentes de inimigos mortos em batalhas, numa atitude de bravura e heroísmo.
Quando pequenina, Nacaíra gostava de ouvir as histórias de Janá, velha feiticeira, que conhecia os poderes misteriosos das plantas, a origem dos rios, a das serras, e sabia os nomes de muitas estrelas do céu. Contara-lhe uma vez Janá que a Lua era um guerreiro branco, belo e poderoso. Nas noites de luar descia à Terra para se casar com uma jovem; depois a levava para o céu, transformando-a em brilhante estrela.
Nacaíra ouvia em silêncio, olhinhos presos no espaço infinito.
— Como seria bom viver lá no alto, transformada em estrelinha e olhar a terra pequenina e distante. . .
As palavras da velha Janá ficaram na mente de Nacaíra, que, mesmo depois de jovem e dotada de surpreendente beleza, jamais se interessou pelos moços da aldeia ou de outras tribos.
Nas noites de luar, saía pelas matas fitando o céu, braços erguidos como a querer alcançar o guerreiro bem-amado. Naquela noite de festas, ela deixou as danças e cantos, as custosas bebidas e cheirosos assados e pôs-se a caminhar pela floresta.

No meio do céu a Lua brilhava tranqüila. Tudo era sossego. Apenas o vento, que brincava nas árvores, trazia o rumor distante das danças e cantos da taba. Lá longe, no azul sem-fim, as estrelas eram como tochinhas brilhando serenas. Nacaíra encaminhou-se para a lagoa. Viu refletida nas águas a imagem querida da Lua. Boiava de mansinho como se dela se aproximasse sempre mais. Pensando no jovem branco que, por certo, vinha buscá-la, a indígena correu ao seu encontro, atirando-se nas águas profundas.
Ninguém mais viu Nacaíra, a bela princesa dos maués. Mas o luar, única testemunha daquela cena, se condoeu da infeliz indiazinha; em vez de transformá-la numa estrela do céu, transformou-a em Estrela das Águas.
No dia seguinte, quando os maués andaram em busca de Nacaíra, encontraram no lago uma flor de radiante beleza, de um suave tom rosa pálido e de perfume delicado, semelhante ao do fruto maduro. Era a Vitória-Régia que, desde então passou a enfeitar a superfície dos grandes lagos e rios.
E contam que, nas noites de luar, ela abre de mansinho as suas pétalas acetinadas para receber a luz e carícias da Lua.
A Lenda do Girassol

ERA uma vez uma estrelinha que se apaixonou pelo Sol. Por ela, não faria outra coisa que admirá-lo. Dificilmente conseguia contemplá-lo, pois mamãe Lua vigiava-a atentamente e não se cansava de dizer-lhe:
— Tontinha! Você não sabe que o Sol é o senhor do dia, o rei da luz, enquanto você nada mais é que um pequeno ponto luminoso perdido nas trevas da noite? Filhinha deixe de sonhar com o impossível.
E quando, ao despontar da madrugada, via que a pequena teimava em demorar-se no céu, obrigava-a com um gesto imperioso a retirar-se; e, se ao pôr-do-sol ela saía antes da hora marcada, ocultava-lhe a visão com o véu de uma nuvem.
Mas, um dia, a estrela apaixonada, cansada de sofrer e de ser continuamente censurada, confiou ao rei dos ventos a sua tristeza, e pediu-lhe que a ajudasse.
O rei dos ventos pensou um pouco e logo disse:
— Para que você possa olhar o Sol, como deseja, é preciso que desça à Terra. Está disposta a fazer tal viagem?
— Sim, respondeu a estrela, trêmula de alegria.
— E deverá também renunciar à sua luz, porque o Sol não admite competidores.
— Renuncio ao que for preciso, de todo coração!
O rei dos ventos escondeu a estrela enamorada sob seu manto e levou-a para a Terra.
Deixou-a às margens de um trigal, justamente quando o Sol despontava entre as nuvens debruadas de púrpura e ouro.
Uma haste alta e forte levantou a estrela por sobre todas as espigas e, enquanto sua luz se consumia, seu coração transbordava de alegria.
— Bom dia, disseram-lhe os lírios, as esporinhas, as papoulas. Quem é você?
Mas ela nem sequer ouviu essas gentis palavras, pois sua atenção estava concentrada todinha no Sol. E durante todo o dia olhou-o sem pestanejar, seguindo lenta, muito lentamente com o movimento de sua cabeça ouro pálido, o percurso do grande disco de fogo.
A estrela deslumbrada, cujas pontas agora haviam-se transformado em pétalas amarelas, ignorava tudo que havia à sua volta: flores, pássaros, espigas, formigas, árvores. . .
À noite, os lírios, as esporinhas, as papoulas e as douradas espigas cumprimentaram o novo companheiro desconhecido e, não sabendo seu nome disseram:
— Boa noite... Girassol!
À noite, os lírios, as esporinhas, as papoulas e as douradas espigas cumprimentaram o novo companheiro desconhecido e, não sabendo seu nome disseram:
— Boa noite... Girassol!
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