Referente ao velho debate homem x mulher, encontrei um ponto de vista muito interessante e sábio no livro Papisa Joana de Donna Woolfolk Cross, leitura que prendeu minha atenção da primeira à última página e me fez querer saber mais sobre essa heroína, cuja história também está representada em filme de mesmo nome. Por gostar tanto desejei dividir o conhecimento e irei postar aqui um trecho do livro:
Odo sorriu, seus lábios finos contraindo-se de modo desagradável. Ele tinha a expressão da raposa que conseguiu encurralar o coelho.
- (...) Pois o próprio São Paulo afirmou esta verdade, que as mulheres são inferiores aos homens em concepção, em lugar, e em vontade. Em concepção porque Adão foi criado primeiro e Eva depois; em lugar porque Eva foi criada para servir Adão como companheira; e em vontade porque Eva não pôde resistir à tentação do diabo e comeu a maçã.
(...)
Joana sentiu uma profunda antipatia por aquele homem de cara delgada. Por um instante ficou silenciosa, puxando o seu nariz.
- Por que a mulher seria inferior em concepção? - ela perguntou por fim - Pois embora tenha sido criada depois, ela foi feita da costela de Adão, ao passo que Adão foi feito de mero barro. Em lugar, a mulher deveria preceder o homem, porque Eva foi criada dentro do Paraíso, e Adão fora dele. (...) Quanto a vontade, a mulher deveria ser considerada superior ao homem, pois Eva comeu da maçã por amor à cultura e ao conhecimento, enquanto Adão comeu simplesmente porque ela pediu que ele comesse.
sábado, 21 de janeiro de 2012
domingo, 12 de setembro de 2010
História de um cão
Eu tive um cão. Chamava-se Veludo:
Magro, asqueroso, revoltante, imundo;
Para dizer em uma só palavra tudo
Foi o mais feio cão que houve no mundo.
Recebi-o das mãos de um camarada
Na hora da partida. O cão gemendo,
Não queria me acompanhar por nada:
Enfim – mau grado seu – o vim trazendo.
O meu amigo cabisbaixo, mudo
Olhava-o... O sol nas ondas se abismava...
Adeus! – me disse, - e ao afagar Veludo
Nos olhos seus o pranto borbulhava.
“Trata-o bem. Verás como rasteiro
“Te indicará os mais sutis perigos;
“Adeus! E que este amigo verdadeiro
“Te console no mundo êrmo de amigos.
Veludo, a custo, habituou-se à vida
Que o destino de novo lhe escolhera;
Sua rugosa pálpebra sentida
Chorava o antigo dono que perdera.
Nas longas noites de luar brilhante,
Febril, convulso, trêmulo, agitando
A nua cauda – caminhava errante
À luz da lua – tristemente uivando.
Toussenel, Figuier e a lista imensa
Dos modernos zoólogos doutores
Dizem que o cão é um animal que pensa:
Talvez tenham razão esses senhores.
Lembro-me ainda. Trouxe-me o correio,
Cinco meses depois, do meu amigo,
Um “envelope” fartamente cheio:
Era uma carta. Carta! Era um artigo,
Contendo a narração miúda e exata
Da travessia. Dava-me importantes
Notícias do Brasil e de La Plata,
Falava em raios, árvores gigantes;
Gabava o “steamer” que o levou. – dizia
Que ia tentar inúmeras empresas:
Contava-me também que a bordo havia
Mulheres joviais – todas francesas.
Assombrava-se muito da ligeira
Moralidade que encontrou a bordo:
Citava o caso de uma passageira...
Mil coisas mais de que não me recordo.
Finalmente, por baixo de tudo,
Em “nota bene” do melhor cursivo
Recomendava “o pobre Veludo”
Pedindo a Deus que “o conservasse vivo”.
Enquanto eu lia, o cão tranqüilo e atento
Me contemplava, e, - creia que é verdade
Vi, comovido, vi nesse momento
Seus olhos gotejarem de saudade.
Depois lambeu-me as mãos humildemente,
Estendeu-se a meus pés silencioso,
Movendo a cauda, - e adormeceu contente,
Farto de um puro e satisfeito gôzo.
Passou-se o tempo. Finalmente um dia
Vi-me livre daquele companheiro:
Para nada Veludo me servia,
Dei-o à mulher dum velho carvoeiro.
E respirei! – Graças a Deus! Já posso
- Dizia eu – Viver neste bom mundo
Sem ter que dar diariamente um osso
A um bicho vil, a um feio cão imundo.
Gosto dos animais, porém prefiro
A essa raça baixa e aduladora
Um alazão inglês, de sela ou tiro,
Ou uma gata branca cismadora.
Mal respirei, porém! Quando dormia,
E a negra noite amortalhava tudo,
Senti que à minha porta alguém batia:
Fui ver quem era, abri. Era Veludo.
Saltou-me às mãos, lambeu-me os pés ganindo,
Farejou toda a casa satisfeito;
E – de cansado – foi rolar dormindo
Como uma pedra – junto do meu leito.
Praguejei furioso. Era execrável
Suportar esse hóspede importuno
Que me seguia como um miserável
Ladrão, ou como um pérfido gatuno.
E resolvi-me enfim. Certo, é custoso
Dizê-lo em alta voz e confessá-lo:
Para livrar-me desse cão leproso
Havia um meio só: era matá-lo.
Zunia a asa fúnebre dos ventos;
Ao longe o mar, na solidão gemendo
Arrebentava em uivos e lamentos...
De instante a instante ia o tufão crescendo.
Chamei Veludo, ele seguiu-me. Entanto
A fremente borrasca me arrancava
Dos frios ombros o revolto manto
E a chuva meus cabelos fustigava.
Despertei um barqueiro. Contra o vento,
Contra as ondas coléricas vogamos;
Dava-me força o torvo pensamento:
Peguei num remo – e com furor remamos.
Veludo à proa olhava-me choroso
Como um cordeiro no final momento:
Embora! Era fatal? Era forçoso
Livrar-me enfim desse animal nojento.
No largo mar ergui-o nos meus braços
E arremessei-o às ondas de repente...
Ele moveu gemendo os membros lassos
Lutando contra a morte. Era pungente.
Voltei a terra, - entrei em casa. O vento
Zunia sempre na amplidão – profundo.
E pareceu-me ouvir o atroz lamento
De Veludo, nas ondas moribundo.
Mas ao despir dos ombros meus o manto
Notei – oh grande dor! - Haver perdido
Uma relíquia que eu prezava tanto!
Era um cordão de prata: - eu tinha-o unido
Contra o meu coração constantemente
E o conservava no maior recato,
Pois minha mãe me dera essa corrente
E, suspenso à corrente, o seu retrato.
Certo caíra além, no mar profundo,
No eterno abismo que devora tudo;
E foi o cão, foi esse cão imundo
A causa do meu mal! Ah! Se Veludo
Duas vidas tivera, - duas vidas
Eu arrancara àquela besta morta!
E aquelas vis entranhas corrompidas!
Nisto senti uivar à minha porta.
Corri, - abri. Era Veludo! Arfava
Estendeu-se a meus pés – e docemente
Deixou cair da boca que espumava
A medalha suspensa da corrente.
Fora crível, oh Deus? – Ajoelhado
Junto do cão, - estupefato, absorto,
Palpei-lhe o corpo: estava enregelado;
Sacudi-o, chamei-o! Estava morto.
LUIS GUIMARÃES JÚNIOR
Magro, asqueroso, revoltante, imundo;
Para dizer em uma só palavra tudo
Foi o mais feio cão que houve no mundo.
Recebi-o das mãos de um camarada
Na hora da partida. O cão gemendo,
Não queria me acompanhar por nada:
Enfim – mau grado seu – o vim trazendo.
O meu amigo cabisbaixo, mudo
Olhava-o... O sol nas ondas se abismava...
Adeus! – me disse, - e ao afagar Veludo
Nos olhos seus o pranto borbulhava.
“Trata-o bem. Verás como rasteiro
“Te indicará os mais sutis perigos;
“Adeus! E que este amigo verdadeiro
“Te console no mundo êrmo de amigos.
Veludo, a custo, habituou-se à vida
Que o destino de novo lhe escolhera;
Sua rugosa pálpebra sentida
Chorava o antigo dono que perdera.
Nas longas noites de luar brilhante,
Febril, convulso, trêmulo, agitando
A nua cauda – caminhava errante
À luz da lua – tristemente uivando.
Toussenel, Figuier e a lista imensa
Dos modernos zoólogos doutores
Dizem que o cão é um animal que pensa:
Talvez tenham razão esses senhores.
Lembro-me ainda. Trouxe-me o correio,
Cinco meses depois, do meu amigo,
Um “envelope” fartamente cheio:
Era uma carta. Carta! Era um artigo,
Contendo a narração miúda e exata
Da travessia. Dava-me importantes
Notícias do Brasil e de La Plata,
Falava em raios, árvores gigantes;
Gabava o “steamer” que o levou. – dizia
Que ia tentar inúmeras empresas:
Contava-me também que a bordo havia
Mulheres joviais – todas francesas.
Assombrava-se muito da ligeira
Moralidade que encontrou a bordo:
Citava o caso de uma passageira...
Mil coisas mais de que não me recordo.
Finalmente, por baixo de tudo,
Em “nota bene” do melhor cursivo
Recomendava “o pobre Veludo”
Pedindo a Deus que “o conservasse vivo”.
Enquanto eu lia, o cão tranqüilo e atento
Me contemplava, e, - creia que é verdade
Vi, comovido, vi nesse momento
Seus olhos gotejarem de saudade.
Depois lambeu-me as mãos humildemente,
Estendeu-se a meus pés silencioso,
Movendo a cauda, - e adormeceu contente,
Farto de um puro e satisfeito gôzo.
Passou-se o tempo. Finalmente um dia
Vi-me livre daquele companheiro:
Para nada Veludo me servia,
Dei-o à mulher dum velho carvoeiro.
E respirei! – Graças a Deus! Já posso
- Dizia eu – Viver neste bom mundo
Sem ter que dar diariamente um osso
A um bicho vil, a um feio cão imundo.
Gosto dos animais, porém prefiro
A essa raça baixa e aduladora
Um alazão inglês, de sela ou tiro,
Ou uma gata branca cismadora.
Mal respirei, porém! Quando dormia,
E a negra noite amortalhava tudo,
Senti que à minha porta alguém batia:
Fui ver quem era, abri. Era Veludo.
Saltou-me às mãos, lambeu-me os pés ganindo,
Farejou toda a casa satisfeito;
E – de cansado – foi rolar dormindo
Como uma pedra – junto do meu leito.
Praguejei furioso. Era execrável
Suportar esse hóspede importuno
Que me seguia como um miserável
Ladrão, ou como um pérfido gatuno.
E resolvi-me enfim. Certo, é custoso
Dizê-lo em alta voz e confessá-lo:
Para livrar-me desse cão leproso
Havia um meio só: era matá-lo.
Zunia a asa fúnebre dos ventos;
Ao longe o mar, na solidão gemendo
Arrebentava em uivos e lamentos...
De instante a instante ia o tufão crescendo.
Chamei Veludo, ele seguiu-me. Entanto
A fremente borrasca me arrancava
Dos frios ombros o revolto manto
E a chuva meus cabelos fustigava.
Despertei um barqueiro. Contra o vento,
Contra as ondas coléricas vogamos;
Dava-me força o torvo pensamento:
Peguei num remo – e com furor remamos.
Veludo à proa olhava-me choroso
Como um cordeiro no final momento:
Embora! Era fatal? Era forçoso
Livrar-me enfim desse animal nojento.
No largo mar ergui-o nos meus braços
E arremessei-o às ondas de repente...
Ele moveu gemendo os membros lassos
Lutando contra a morte. Era pungente.
Voltei a terra, - entrei em casa. O vento
Zunia sempre na amplidão – profundo.
E pareceu-me ouvir o atroz lamento
De Veludo, nas ondas moribundo.
Mas ao despir dos ombros meus o manto
Notei – oh grande dor! - Haver perdido
Uma relíquia que eu prezava tanto!
Era um cordão de prata: - eu tinha-o unido
Contra o meu coração constantemente
E o conservava no maior recato,
Pois minha mãe me dera essa corrente
E, suspenso à corrente, o seu retrato.
Certo caíra além, no mar profundo,
No eterno abismo que devora tudo;
E foi o cão, foi esse cão imundo
A causa do meu mal! Ah! Se Veludo
Duas vidas tivera, - duas vidas
Eu arrancara àquela besta morta!
E aquelas vis entranhas corrompidas!
Nisto senti uivar à minha porta.
Corri, - abri. Era Veludo! Arfava
Estendeu-se a meus pés – e docemente
Deixou cair da boca que espumava
A medalha suspensa da corrente.
Fora crível, oh Deus? – Ajoelhado
Junto do cão, - estupefato, absorto,
Palpei-lhe o corpo: estava enregelado;
Sacudi-o, chamei-o! Estava morto.
LUIS GUIMARÃES JÚNIOR
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Administração de Vendas
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Cachoeira e S. Félix
QUANDO os pioneiros partiram de Salvador, capital da Bahia, com destino ao Recôncavo Baiano, foram por mar. Depois de navegarem algumas horas, encontraram um grande rio navegável, que denominaram Paraguassu, em homenagem à índia Paraguassu. Tiveram a sensação de aportarem em uma região onde a grande artista, que é a natureza, esculpiu e pintou a floresta e o céu em cores mais belas que as do arco-íris, tendo como acabamento um rio ao meio.
Extasiados, os pioneiros contemplaram aquelas terras selvagens, habitadas por duas tribos de índios amigos. Uma em cada lado do rio. Puseram o primeiro marco da fazenda Cachoeira. O nome foi influenciado pela disposição das águas do rio e também pelo nome da mais bela e graciosa índia, até então vista nas terras da Bahia. Chamava-se Cachu. Era filha do chefe da tribo. Tinha a fidalguia de uma nobre européia. Seus olhos eram dois oceanos de luz, que faziam contraste com a beleza do rio. Seus cabelos negros eram longos como as caudalosas correntes do rio. Os índios naquele tempo não eram estúpidos como os atuais, que amarram uma embira na barriga e pensam que estão vestidos.
Os pioneiros tiveram carinhosa recepção pelos índios. Inúmeras canoas cruzaram o rio.
Eram os da outra tribo, que vieram saudar e dar boas vindas aos viajantes. Não desejavam porém permanecer ali os pioneiros. Desejavam seguir para a frente e reservar aquele pedaço de céu com um rio e duas povoações em suas margens para a etapa final. Reservaram como uma deliciosa sobremesa, para um banquete de desbravamento. Atravessaram o rio em canoas dos índios, decoradas com flores silvestres. Na outra margem do rio eles puseram um marco com um nome, que na volta modificaram para S. Félix. Estavam pisando em terras daqueles índios que atravessaram o rio para os saudar. Entre eles destacava-se o jovem índio Iratu, filho do cacique.
Belo espécime de sua raça. Vigoroso e destemido, era o maior caçador de toda a região. No seu coração habitava a bela índia Cachu, sua noiva. Também ele encantou os viajantes, com a sua sabedoria e a sua inteligência.
Os pioneiros deixaram aquele paraíso e prosseguiram enfrentando as vicissitudes, até chegarem a uma planície a que denominaram Cruz das Almas.
Aquela bandeira terminava ali. Não tinham mais coragem de prosseguir, porque o desejo geral era regressar e acampar nas margens do Rio Paraguassu. E assim fizeram.
Os índios de ambas as margens os esperaram com grandes festas. Os tambores anunciaram o regresso dos pioneiros. Flautas de bambu tocavam melodias índias. O jesuíta frei Afonso batizou o índio Iratu com o nome de Félix. Depois, em homenagem às extraordinárias qualidades daquele atlético índio, os pioneiros tiraram o marco que antes deixaram e puseram outro com o nome de S. Félix, onde mais tarde nasceu a bela cidade que conserva o mesmo nome. Descansaram alguns dias. Armaram as barracas em ambas as margens do rio, a fim de agraciarem com suas presenças as duas tribos.
Depois, saudosos, partiram, levando para Salvador o heroísmo de suas conquistas, os presentes recebidos e o relato maravilhoso daquelas terras selvagens, onde pela primeira vez o pé do homem civilizado pisou.
Ao ouvir o relato, o holandês Bernard, traficante de escravos, pôs em um navio negreiro (próprio para rios como o Paraguassu) todos os seus escravos e foi apossar-se daquelas terras, à margem do Paraguassu, relatadas com tanta beleza. Chegando lá escolheu Cachoeira. Obrigou os escravos e os índios a trabalharem doze horas por dia, a fim de construírem uma mansão à beira do rio, no lugar onde hoje é o cais. Depois da bela casa pronta, o maldito também queria fazer um harém. Mandou buscar mulheres em Salvador. A beleza da índia Cachu o seduziu. Ele queria que ela fosse a favorita do harém. Cachu recusou. O malvado a agarrou à força. Ela o esbofeteou. Aquela mão índia foi a primeira mão que esbofeteou aquela face hedionda. Em seguida ela remou na canoa e fugiu para S.Félix em busca de proteção do seu amado Félix. O malvado segui-a com os seus escravos, armados. Tiraram Cachu dos braços de Félix. A uma reação dos pobres índios, que não tinham armas de fogo, o malvado mandou exterminar todos eles, dali, de S. Félix. Salvaram-se apenas alguns, que conseguiram fugir para as matas.
Cachu viu o seu amado tombar ao impacto das balas assassinas. A terra e as areias do rio ficaram tintas de sangue. Os corpos dos índios foram atirados no rio. O malvado trouxe Cachu de volta, para Cachoeira. Os índios de Cachoeira junto com o cacique seu pai vieram em sua defesa. Tiveram a mesma sorte que os índios de S. Félix. A grande calçada, que o malvado mandou fazer em volta da casa ficou tinta de sangue, e ainda a terra e a areia. Cachu foi assassinada. A matança de índios foi grande. De ambos os lados os índios eram bravos. Lutaram até morrer. Suas ilechas eram impotentes, diante das armas de fogo.
Os corpos também foram atirados no rio. As águas do Paraguassu estavam vermelhas, com o sangue dos mártires. O rio Paraguassu foi testemunha daquele massacre. Guardava no seu seio os corpos dos mártires. Suas águas corriam como lágrimas de dor.
Barnard acendeu grandes fogueiras e fêz uma grande festa, para comemorar o massacre. Para ele tudo estava bem, mas para o rio Paraguassu, não.
Acabadas as festividades todos foram dormir. Só o rio não dormiu. Ele precisava de lavar o sangue dos mártires. O rio, que nunca antes crescera, naquela noite cresceu... cresceu... cresceu o volume de suas águas até atingirem a terra de Cachoeira e S. Félix. O sangue dos mártires foi lavado. O rio continuou crescendo, até cobrir a casa de Bernard. Ele, seus filhos e seus escravos foram carregados pela enchente, sem tempo para se defenderem.
O rio só deixou de subir quando não mais existia pedra sobre pedra na casa do malvado.
Depois outros povos vieram, colonizaram S. Félix e Cachoeira. Seus filhos foram nascendo, com fibra de heróis. A alma de Cachu infundiu mais coragem nos heróicos filhos de Cachoeira, levando-os a soltarem o primeiro grito de independência, jamais ouvido antes no Brasil. Aquele grito que ecoou por todo o Brasil! Que encheu o Brasil de orgulho! Aquele grito que chegou aos ouvidos de D. Pedro I, conduzindo-o às margens de outro rio, o Ipiranga, onde sua majestade, erguendo a sua espada, soltou aquele histórico "Independência ou Morte"! ([1])
([1]) Este conto é "science fiction", mas sobre o primeiro grito de Independência no Brasil é realidade.
Quando Cachoeira soltou o seu grito de independência S. Félix extasiado ouviu. Seus filhos estavam prontos para ajudar a cidade irmã. Muitos atravessaram o rio e foram unir-se aos heróis. Envolveram-se na mesma bravura. Silencioso o Rio Paraguassu contemplou. Ele é a alma e o coração de S. Félix e Cachoeira. Onde nasce, ninguém se preocupa em saber; por onde passa a ninguém importa, o que importa é que a sede do Rio Paraguassu é em Cachoeira e S. Félix.
Como um réquiem aos índios massacrados, o Rio Paraguassu ainda continua, com as enchentes, lavando as calçadas e cobrindo as casas de Cachoeira e S. Félix. Esta última resiste às enchentes, com heroísmo. As duas cidades e o rio são o cartão postal do Estado da Bahia. E Cachoeira, que devia ser o selo de ouro do Brasil, desconhecida e esquecida nos tempos de agora, com heroismo resiste às enchentes daquele fabuloso rio, que as autoridades brasileiras nunca tiveram consideração de o mandar dragar, em benefício daquela cidade.
Princesa Kee-Kow (contos). KOSNICK, Maria Chiacchio
Extasiados, os pioneiros contemplaram aquelas terras selvagens, habitadas por duas tribos de índios amigos. Uma em cada lado do rio. Puseram o primeiro marco da fazenda Cachoeira. O nome foi influenciado pela disposição das águas do rio e também pelo nome da mais bela e graciosa índia, até então vista nas terras da Bahia. Chamava-se Cachu. Era filha do chefe da tribo. Tinha a fidalguia de uma nobre européia. Seus olhos eram dois oceanos de luz, que faziam contraste com a beleza do rio. Seus cabelos negros eram longos como as caudalosas correntes do rio. Os índios naquele tempo não eram estúpidos como os atuais, que amarram uma embira na barriga e pensam que estão vestidos.
Os pioneiros tiveram carinhosa recepção pelos índios. Inúmeras canoas cruzaram o rio.
Eram os da outra tribo, que vieram saudar e dar boas vindas aos viajantes. Não desejavam porém permanecer ali os pioneiros. Desejavam seguir para a frente e reservar aquele pedaço de céu com um rio e duas povoações em suas margens para a etapa final. Reservaram como uma deliciosa sobremesa, para um banquete de desbravamento. Atravessaram o rio em canoas dos índios, decoradas com flores silvestres. Na outra margem do rio eles puseram um marco com um nome, que na volta modificaram para S. Félix. Estavam pisando em terras daqueles índios que atravessaram o rio para os saudar. Entre eles destacava-se o jovem índio Iratu, filho do cacique.
Belo espécime de sua raça. Vigoroso e destemido, era o maior caçador de toda a região. No seu coração habitava a bela índia Cachu, sua noiva. Também ele encantou os viajantes, com a sua sabedoria e a sua inteligência.
Os pioneiros deixaram aquele paraíso e prosseguiram enfrentando as vicissitudes, até chegarem a uma planície a que denominaram Cruz das Almas.
Aquela bandeira terminava ali. Não tinham mais coragem de prosseguir, porque o desejo geral era regressar e acampar nas margens do Rio Paraguassu. E assim fizeram.
Os índios de ambas as margens os esperaram com grandes festas. Os tambores anunciaram o regresso dos pioneiros. Flautas de bambu tocavam melodias índias. O jesuíta frei Afonso batizou o índio Iratu com o nome de Félix. Depois, em homenagem às extraordinárias qualidades daquele atlético índio, os pioneiros tiraram o marco que antes deixaram e puseram outro com o nome de S. Félix, onde mais tarde nasceu a bela cidade que conserva o mesmo nome. Descansaram alguns dias. Armaram as barracas em ambas as margens do rio, a fim de agraciarem com suas presenças as duas tribos.
Depois, saudosos, partiram, levando para Salvador o heroísmo de suas conquistas, os presentes recebidos e o relato maravilhoso daquelas terras selvagens, onde pela primeira vez o pé do homem civilizado pisou.
Ao ouvir o relato, o holandês Bernard, traficante de escravos, pôs em um navio negreiro (próprio para rios como o Paraguassu) todos os seus escravos e foi apossar-se daquelas terras, à margem do Paraguassu, relatadas com tanta beleza. Chegando lá escolheu Cachoeira. Obrigou os escravos e os índios a trabalharem doze horas por dia, a fim de construírem uma mansão à beira do rio, no lugar onde hoje é o cais. Depois da bela casa pronta, o maldito também queria fazer um harém. Mandou buscar mulheres em Salvador. A beleza da índia Cachu o seduziu. Ele queria que ela fosse a favorita do harém. Cachu recusou. O malvado a agarrou à força. Ela o esbofeteou. Aquela mão índia foi a primeira mão que esbofeteou aquela face hedionda. Em seguida ela remou na canoa e fugiu para S.Félix em busca de proteção do seu amado Félix. O malvado segui-a com os seus escravos, armados. Tiraram Cachu dos braços de Félix. A uma reação dos pobres índios, que não tinham armas de fogo, o malvado mandou exterminar todos eles, dali, de S. Félix. Salvaram-se apenas alguns, que conseguiram fugir para as matas.
Cachu viu o seu amado tombar ao impacto das balas assassinas. A terra e as areias do rio ficaram tintas de sangue. Os corpos dos índios foram atirados no rio. O malvado trouxe Cachu de volta, para Cachoeira. Os índios de Cachoeira junto com o cacique seu pai vieram em sua defesa. Tiveram a mesma sorte que os índios de S. Félix. A grande calçada, que o malvado mandou fazer em volta da casa ficou tinta de sangue, e ainda a terra e a areia. Cachu foi assassinada. A matança de índios foi grande. De ambos os lados os índios eram bravos. Lutaram até morrer. Suas ilechas eram impotentes, diante das armas de fogo.
Os corpos também foram atirados no rio. As águas do Paraguassu estavam vermelhas, com o sangue dos mártires. O rio Paraguassu foi testemunha daquele massacre. Guardava no seu seio os corpos dos mártires. Suas águas corriam como lágrimas de dor.
Barnard acendeu grandes fogueiras e fêz uma grande festa, para comemorar o massacre. Para ele tudo estava bem, mas para o rio Paraguassu, não.
Acabadas as festividades todos foram dormir. Só o rio não dormiu. Ele precisava de lavar o sangue dos mártires. O rio, que nunca antes crescera, naquela noite cresceu... cresceu... cresceu o volume de suas águas até atingirem a terra de Cachoeira e S. Félix. O sangue dos mártires foi lavado. O rio continuou crescendo, até cobrir a casa de Bernard. Ele, seus filhos e seus escravos foram carregados pela enchente, sem tempo para se defenderem.
O rio só deixou de subir quando não mais existia pedra sobre pedra na casa do malvado.
Depois outros povos vieram, colonizaram S. Félix e Cachoeira. Seus filhos foram nascendo, com fibra de heróis. A alma de Cachu infundiu mais coragem nos heróicos filhos de Cachoeira, levando-os a soltarem o primeiro grito de independência, jamais ouvido antes no Brasil. Aquele grito que ecoou por todo o Brasil! Que encheu o Brasil de orgulho! Aquele grito que chegou aos ouvidos de D. Pedro I, conduzindo-o às margens de outro rio, o Ipiranga, onde sua majestade, erguendo a sua espada, soltou aquele histórico "Independência ou Morte"! ([1])
([1]) Este conto é "science fiction", mas sobre o primeiro grito de Independência no Brasil é realidade.
Quando Cachoeira soltou o seu grito de independência S. Félix extasiado ouviu. Seus filhos estavam prontos para ajudar a cidade irmã. Muitos atravessaram o rio e foram unir-se aos heróis. Envolveram-se na mesma bravura. Silencioso o Rio Paraguassu contemplou. Ele é a alma e o coração de S. Félix e Cachoeira. Onde nasce, ninguém se preocupa em saber; por onde passa a ninguém importa, o que importa é que a sede do Rio Paraguassu é em Cachoeira e S. Félix.
Como um réquiem aos índios massacrados, o Rio Paraguassu ainda continua, com as enchentes, lavando as calçadas e cobrindo as casas de Cachoeira e S. Félix. Esta última resiste às enchentes, com heroísmo. As duas cidades e o rio são o cartão postal do Estado da Bahia. E Cachoeira, que devia ser o selo de ouro do Brasil, desconhecida e esquecida nos tempos de agora, com heroismo resiste às enchentes daquele fabuloso rio, que as autoridades brasileiras nunca tiveram consideração de o mandar dragar, em benefício daquela cidade.
Princesa Kee-Kow (contos). KOSNICK, Maria Chiacchio
Cidade Governador Mangabeira
A PEQUENA cidade de Governador Mangabeira foi plantada e fundada com a bravura dos pioneiros.
É uma roseira no recôncavo baiano, que deu um galho com três rosas em longas hastes, que são as suas três ruas. É uma cidade pobre, mas tem a riqueza no coração de seus habitantes.
Pertencia a Muritiba, um arraial. Quis a sua independência e tornar-se uma cidade, para honrar o nome de seu filho, o grande poeta, Castro Alves, nascido em Cabeceiras, que pelo direito pertence a Governador Mangabeira. A cidade é limpa, as casas são graciosas. A cadeia está sempre vazia porque não há criminosos.
A alma de Castro Alves predomina até no ar que se respira. A poesia continua, como no tempo em que seu filho cantou, em versos imortais, o Navio Negreiro e outros versos em defesa dos oprimidos e em defesa da pátria amada: Brasil.
A poesia de hoje não está nos versos do poeta. Está na beleza de suas mulheres. Está nas noites de lua que a eletricidade não conseguiu superar; está no solo fecundo onde crescem flores e hortaliças em abundância; está na sombra das mangueiras, que dão os mais deliciosos frutos; está na sombra das jaqueiras, que nos convida a repousar olhando de baixo os seus frutos, que parecem balões pendurados; está na fonte da Bica que com a sua água fresca e cristalina oferece banhos sadios e maravilhosos; está no chapéu de couro dos catingueiros, que aos sábados vêm fazer a feira; está nas casas de sapé dos arredores; está na graciosa igreja, que aos domingos se abre, quando o padre de S. Félix vem celebrar a missa, está, enfim, na lenda do logarejo chamado Bom Sucesso, onde se venera a imagem do Senhor de Bom Sucesso, padroeiro da cidade, que antes se chamava Cabeças.
O nome originou-se porque quando os pioneiros partiram de Salvador, capital da Bahia, com destino ao recôncavo baiano, desbravando matas e conquistando terreno, à foice e a machado, viram um caminho naquele lugar, que parecia uma estreita estrada. Eles armaram as barracas, plantaram um marco, fizeram grandes fogueiras, dispostos a descansarem alguns dias, a fim de refazerem as energias perdidas. Depois prosseguiram a jornada, até a planície que eles denominaram Cruz das Almas, porque no meio dos arbustos havia uma grande cruz de madeira. Aproximaram-se e viram que a cruz era uma árvore, que nasceu em forma de cruz.
Depois os índios avisaram que eles não voltassem, porque poucas léguas distante, num lugar que tinha um caminho como estreita estrada, existia uma grande cobra, com vinte e um metros de comprimento e com sete cabeças.
Comia com todas as sete cabeças, durante sete dias, depois dormia sete dias. Quando conseguia pegar um índio, comia o corpo, deixava a cabeça, que guardava perto da fonte da Bica, como troféu.
Eles tiveram sorte, quando passaram, a cobra estava dormindo. Só uma coisa, ela tinha medo: era do fogo.
Eles não podiam permanecer para sempre naquele lugar, que eles fundaram a fazenda Cruz das Almas. Era preciso matar o monstro e voltar. Bem armados, foram preparando fogueiras, como as de S. João, quando estavam próximo do lugar. Puseram um líquido inflamável e deixaram para acender quando fosse preciso. A cobra estava acordada. Quando os viu, partiu para liquidá-los. A fuzilaria foi cerrada. Quanto mais eles atiravam, mais o monstro avançava. Eles foram recuando e acendendo as fogueiras. Assim eles salvaram as suas vidas. Desanimados, voltaram.
Ao ouvir o insucesso da missão, frei Afonso, o Jesuíta, que os acompanhava, tinha ficado em Cruz das Almas, rezando, prometeu rezar mais e encontrar uma solução. Ele passou a noite deitado, ao pé da cruz, rezando.
No dia seguinte ele disse: — "Nós temos um canhão, vamos precisar. Levarei sete balas de canhão, com água benta. Uma para cada cabeça da cobra. José, que é escultor, deverá esculpir uma cruz de madeira, de jacarandá, e uma imagem de Jesus, em cajá, para botarmos no canhão. Só assim poderemos vencer o monstro”.
Tudo foi feito. Levaram o canhão, com a cruz e a imagem de Jesus, na frente. Quando o monstro apareceu, o primeiro tiro arrancou uma cabeça, o segundo outra, até o último, que arrancou a última cabeça. A serpente soltava urros, abalava tudo. Depois eles queimaram o corpo da serpente. Encontraram muitas cabeças de índios mumificadas pela cobra, que eles deram sepultura. Por esse motivo eles batizaram o lugar com o nome de Cabeças. E pela ajuda de Jesus, cuja imagem estava na frente do canhão, pelo sucesso alcançado, frei Afonso batizou a imagem com o nome de Senhor do Bom Sucesso.
Até hoje é venerada em Governador Mangabeira.
Princesa Kee-Kow (contos). KOSNICK, Maria Chiacchio
É uma roseira no recôncavo baiano, que deu um galho com três rosas em longas hastes, que são as suas três ruas. É uma cidade pobre, mas tem a riqueza no coração de seus habitantes.
Pertencia a Muritiba, um arraial. Quis a sua independência e tornar-se uma cidade, para honrar o nome de seu filho, o grande poeta, Castro Alves, nascido em Cabeceiras, que pelo direito pertence a Governador Mangabeira. A cidade é limpa, as casas são graciosas. A cadeia está sempre vazia porque não há criminosos.
A alma de Castro Alves predomina até no ar que se respira. A poesia continua, como no tempo em que seu filho cantou, em versos imortais, o Navio Negreiro e outros versos em defesa dos oprimidos e em defesa da pátria amada: Brasil.
A poesia de hoje não está nos versos do poeta. Está na beleza de suas mulheres. Está nas noites de lua que a eletricidade não conseguiu superar; está no solo fecundo onde crescem flores e hortaliças em abundância; está na sombra das mangueiras, que dão os mais deliciosos frutos; está na sombra das jaqueiras, que nos convida a repousar olhando de baixo os seus frutos, que parecem balões pendurados; está na fonte da Bica que com a sua água fresca e cristalina oferece banhos sadios e maravilhosos; está no chapéu de couro dos catingueiros, que aos sábados vêm fazer a feira; está nas casas de sapé dos arredores; está na graciosa igreja, que aos domingos se abre, quando o padre de S. Félix vem celebrar a missa, está, enfim, na lenda do logarejo chamado Bom Sucesso, onde se venera a imagem do Senhor de Bom Sucesso, padroeiro da cidade, que antes se chamava Cabeças.
O nome originou-se porque quando os pioneiros partiram de Salvador, capital da Bahia, com destino ao recôncavo baiano, desbravando matas e conquistando terreno, à foice e a machado, viram um caminho naquele lugar, que parecia uma estreita estrada. Eles armaram as barracas, plantaram um marco, fizeram grandes fogueiras, dispostos a descansarem alguns dias, a fim de refazerem as energias perdidas. Depois prosseguiram a jornada, até a planície que eles denominaram Cruz das Almas, porque no meio dos arbustos havia uma grande cruz de madeira. Aproximaram-se e viram que a cruz era uma árvore, que nasceu em forma de cruz.
Depois os índios avisaram que eles não voltassem, porque poucas léguas distante, num lugar que tinha um caminho como estreita estrada, existia uma grande cobra, com vinte e um metros de comprimento e com sete cabeças.
Comia com todas as sete cabeças, durante sete dias, depois dormia sete dias. Quando conseguia pegar um índio, comia o corpo, deixava a cabeça, que guardava perto da fonte da Bica, como troféu.
Eles tiveram sorte, quando passaram, a cobra estava dormindo. Só uma coisa, ela tinha medo: era do fogo.
Eles não podiam permanecer para sempre naquele lugar, que eles fundaram a fazenda Cruz das Almas. Era preciso matar o monstro e voltar. Bem armados, foram preparando fogueiras, como as de S. João, quando estavam próximo do lugar. Puseram um líquido inflamável e deixaram para acender quando fosse preciso. A cobra estava acordada. Quando os viu, partiu para liquidá-los. A fuzilaria foi cerrada. Quanto mais eles atiravam, mais o monstro avançava. Eles foram recuando e acendendo as fogueiras. Assim eles salvaram as suas vidas. Desanimados, voltaram.
Ao ouvir o insucesso da missão, frei Afonso, o Jesuíta, que os acompanhava, tinha ficado em Cruz das Almas, rezando, prometeu rezar mais e encontrar uma solução. Ele passou a noite deitado, ao pé da cruz, rezando.
No dia seguinte ele disse: — "Nós temos um canhão, vamos precisar. Levarei sete balas de canhão, com água benta. Uma para cada cabeça da cobra. José, que é escultor, deverá esculpir uma cruz de madeira, de jacarandá, e uma imagem de Jesus, em cajá, para botarmos no canhão. Só assim poderemos vencer o monstro”.
Tudo foi feito. Levaram o canhão, com a cruz e a imagem de Jesus, na frente. Quando o monstro apareceu, o primeiro tiro arrancou uma cabeça, o segundo outra, até o último, que arrancou a última cabeça. A serpente soltava urros, abalava tudo. Depois eles queimaram o corpo da serpente. Encontraram muitas cabeças de índios mumificadas pela cobra, que eles deram sepultura. Por esse motivo eles batizaram o lugar com o nome de Cabeças. E pela ajuda de Jesus, cuja imagem estava na frente do canhão, pelo sucesso alcançado, frei Afonso batizou a imagem com o nome de Senhor do Bom Sucesso.
Até hoje é venerada em Governador Mangabeira.
Princesa Kee-Kow (contos). KOSNICK, Maria Chiacchio
Cruz das Almas
OS PIONEIROS partiram de Salvador, capital da Bahia, com destino ao recôncavo baiano. Foram por mar. Depois que navegaram algumas horas, passaram para um grande rio, chamado Paraguassu. Aportaram em um lugar onde puseram o primeiro marco de uma fazenda, hoje a Cachoeira heróica, que foi a primeira cidade do Brasil a dar o grito de independência.
Nos tempos atuais resiste heroicamente às enchentes do Paraguassu. Do outro lado do rio puseram outro marco onde mais tarde nasceu a bela cidade de S. Félix. Depois eles subiram, desbravando a mata, a serra e do alto contemplaram o rio que corria entre duas terras bravias, sem poderem imaginar que mais tarde seria o mais lindo espetáculo da Bahia: contemplar do alto a grande ponte sobre um rio, que tem em suas margens duas lindas cidades — S. Félix e Cachoeira.
Depois os pioneiros seguiram sua árdua jornada, pois tinham de abrir caminho à foice e a machado. Plantaram um marco no lugar onde hoje é Muritiba. Depois de muito andarem puseram outro marco no lugar que se denomina cidade de Governador Mangabeira. Ali armaram barracas e fizeram fogueiras, dispostos a descansarem alguns dias, a fim de armazenarem novas energias. Prosseguiram a jornada, que era lenta porque, como já disse, tinham que abrir caminho à foice e a machado.
Três dias depois chegaram a uma grande e bela planície. Seus corações exaltaram, quando eles viram, no meio de pequenos arbustos, uma grande cruz de madeira, cujas dimensões se assemelhavam com a Cruz do Gólgota. Era majestosa e bela. Era mais que tudo misteriosa. "Qual seria a mão que colocou aquela cruz ali?" Eles se perguntavam uns aos outros, admirados.
Aproximaram-se da cruz, tiveram a surpresa de verificarem que não era feita pela mão do homem. Era uma cruz feita pela natureza. Era uma árvore, que nasceu e cresceu em forma de cruz. Frei Afonso, o jesuíta que acompanhava os pioneiros, disse: "neste lugar não há ninguém, portanto esta cruz pertence às almas", e batizou o lugar com o nome de CRUZ DAS ALMAS. Dali mais tarde surgiu a grande cidade de Cruz das Almas, alto ponto no progresso do Estado da Bahia. Na mencionada cruz Frei Afonso celebrou a primeira missa que se ouviu naquelas planícies.
Dias depois apareceu um grupo de índios, que tinham sua aldeia do lado dos Poções. Eram mansos. Contaram a história da Cruz. segundo a qual na tribo, séculos passados, existia uma linda índia, filha do cacique. Era querida de todos. Seu nome era Iracy. Só uma santa podia ter um coração tão magnânimo. Cuidava dos doentes, protegia as crianças, dava assistência aos velhos e alimentava os pássaros. Os guerreiros da tribo a disputavam. Por fim ela ficou noiva de Ubiratan, o grande e viril guerreiro. Porém outra índia, por inveja, pois amava Uribatan, jurou vingança. Uma noite. Iracy sonhou com um homem chamado Jesus Cristo, que tinha uma grande cruz, e que lhe ensinou verdades divinas e disse que não comessem mais carne humana, que era pecado. No dia seguinte, Iracy contou o sonho e pregou a palavra de Deus. Todos a ouviram maravilhados. A partir daquele dia deixaram de comer carne humana. A invejosa índia, cujo nome era Jupiranha, reuniu um grupo de índios e lhes disse que Iracy estava com espírito maligno, que era preciso matá-la, para não contaminar a tribo, com maus espíritos.
A malvada atraiu a pobre Iracy a um lugar distante e com seus asseclas a mataram a pauladas. Já tinham uma onça presa para depois entregarem o corpo para a onça, a fim de que a mesma levasse a culpa. Porém os gritos da pobre Iracy foram ouvidos, por alguns guerreiros, que estavam caçando e correram incontinenti ao lugar. Ali mesmo fizeram justiça. Mataram Jupiranha, do mesmo modo que eles mataram Iracy. Levaram os asseclas de Jupiranha para eles dizerem a verdade. Enterraram o corpo da malvada em um lugar distante.
A sua alma virou um pássaro agoureiro, que nas noites sem lua, quando as estrelas se escondem, como que amedrontadas, põe-se a gritar: Canalha... Canalha... Canalha... Justamente o que ela fora em vida.
Na sepultura de Iracy nasceu a grande árvore em forma de cruz. Não se sabe como a Cruz desapareceu misteriosamente. Os índios disseram que Tupan a levou junto com o corpo de Iracy para as planícies divinas. Mas no lugar nasceu outra Cruz. A CRUZ DAS ALMAS, cidade que é tão linda e tão poética, como foi Iracy.
Princesa Kee-Kow (contos). KOSNICK, Maria Chiacchio
Nos tempos atuais resiste heroicamente às enchentes do Paraguassu. Do outro lado do rio puseram outro marco onde mais tarde nasceu a bela cidade de S. Félix. Depois eles subiram, desbravando a mata, a serra e do alto contemplaram o rio que corria entre duas terras bravias, sem poderem imaginar que mais tarde seria o mais lindo espetáculo da Bahia: contemplar do alto a grande ponte sobre um rio, que tem em suas margens duas lindas cidades — S. Félix e Cachoeira.
Depois os pioneiros seguiram sua árdua jornada, pois tinham de abrir caminho à foice e a machado. Plantaram um marco no lugar onde hoje é Muritiba. Depois de muito andarem puseram outro marco no lugar que se denomina cidade de Governador Mangabeira. Ali armaram barracas e fizeram fogueiras, dispostos a descansarem alguns dias, a fim de armazenarem novas energias. Prosseguiram a jornada, que era lenta porque, como já disse, tinham que abrir caminho à foice e a machado.
Três dias depois chegaram a uma grande e bela planície. Seus corações exaltaram, quando eles viram, no meio de pequenos arbustos, uma grande cruz de madeira, cujas dimensões se assemelhavam com a Cruz do Gólgota. Era majestosa e bela. Era mais que tudo misteriosa. "Qual seria a mão que colocou aquela cruz ali?" Eles se perguntavam uns aos outros, admirados.
Aproximaram-se da cruz, tiveram a surpresa de verificarem que não era feita pela mão do homem. Era uma cruz feita pela natureza. Era uma árvore, que nasceu e cresceu em forma de cruz. Frei Afonso, o jesuíta que acompanhava os pioneiros, disse: "neste lugar não há ninguém, portanto esta cruz pertence às almas", e batizou o lugar com o nome de CRUZ DAS ALMAS. Dali mais tarde surgiu a grande cidade de Cruz das Almas, alto ponto no progresso do Estado da Bahia. Na mencionada cruz Frei Afonso celebrou a primeira missa que se ouviu naquelas planícies.
Dias depois apareceu um grupo de índios, que tinham sua aldeia do lado dos Poções. Eram mansos. Contaram a história da Cruz. segundo a qual na tribo, séculos passados, existia uma linda índia, filha do cacique. Era querida de todos. Seu nome era Iracy. Só uma santa podia ter um coração tão magnânimo. Cuidava dos doentes, protegia as crianças, dava assistência aos velhos e alimentava os pássaros. Os guerreiros da tribo a disputavam. Por fim ela ficou noiva de Ubiratan, o grande e viril guerreiro. Porém outra índia, por inveja, pois amava Uribatan, jurou vingança. Uma noite. Iracy sonhou com um homem chamado Jesus Cristo, que tinha uma grande cruz, e que lhe ensinou verdades divinas e disse que não comessem mais carne humana, que era pecado. No dia seguinte, Iracy contou o sonho e pregou a palavra de Deus. Todos a ouviram maravilhados. A partir daquele dia deixaram de comer carne humana. A invejosa índia, cujo nome era Jupiranha, reuniu um grupo de índios e lhes disse que Iracy estava com espírito maligno, que era preciso matá-la, para não contaminar a tribo, com maus espíritos.
A malvada atraiu a pobre Iracy a um lugar distante e com seus asseclas a mataram a pauladas. Já tinham uma onça presa para depois entregarem o corpo para a onça, a fim de que a mesma levasse a culpa. Porém os gritos da pobre Iracy foram ouvidos, por alguns guerreiros, que estavam caçando e correram incontinenti ao lugar. Ali mesmo fizeram justiça. Mataram Jupiranha, do mesmo modo que eles mataram Iracy. Levaram os asseclas de Jupiranha para eles dizerem a verdade. Enterraram o corpo da malvada em um lugar distante.
A sua alma virou um pássaro agoureiro, que nas noites sem lua, quando as estrelas se escondem, como que amedrontadas, põe-se a gritar: Canalha... Canalha... Canalha... Justamente o que ela fora em vida.
Na sepultura de Iracy nasceu a grande árvore em forma de cruz. Não se sabe como a Cruz desapareceu misteriosamente. Os índios disseram que Tupan a levou junto com o corpo de Iracy para as planícies divinas. Mas no lugar nasceu outra Cruz. A CRUZ DAS ALMAS, cidade que é tão linda e tão poética, como foi Iracy.
Princesa Kee-Kow (contos). KOSNICK, Maria Chiacchio
Feira de Santana
ERA uma linda princesa índia, de longos cabelos luzidios, olhos negros e corpo que parecia de uma Vênus. Seu nome era Feira.
Usava grandes argolas de ouro, que em conjunto com o seu diadema, de pedras preciosas e penas, davam expressão à sua personalidade sertaneja. Sua saia era longa, feita de um tecido de fibra de bananeira e contas de mulungu. Era querida de toda a tribo. Quando cantava, a sua voz suave e bela atraía os pássaros, com a voz do Uiarapuru. Seu noivo era um príncipe índio, chamado Jiquié. Habitava a muitas luas distante da sua gleba, porém ele vencia as asperezas do sertão, viajando por muitas semanas, para ver a sua amada.
A princesa Feira armava a sua rede na sombra dos umbuzeiros e saboreava seus frutos deliciosos. O vento morno e suave a embalava nas noites maravilhosas e perfumadas do sertão. Naquele tempo não havia seca, porque o sertão não estava desnudo. A mão do homem ainda não tinha decepado as árvores. O sertão era verde como a esperança. Coberto de flores, como um divino jardim. Quando a noite descia, os índios acendiam a grande fogueira, para espantar os mosquitos, as cobras e as onças, e também se aquecerem do frio, que descia com a noite, enquanto uma flauta índia tocava melodiosamente.
Feira costumava ir pelos campos, colher flores. Quando ela viu o primeiro homem branco que pisou naquelas glebas, um padre jesuíta, que estava sendo atacado por um jaguar negro, rápida, atirou uma flecha no coração da fera, matando-a. Era fêmea. O macho, que tudo viu, jurou vingança. Feira levou o padre jesuíta, que se chamava Frei Gonsalo, para a taba. O pajé curou-lhe os ferimentos feitos pela onça. O jesuíta batizou os índios. À Feira acrescentou-lhe o nome de Santana. Passou a chamar-se, pois, Feira de Santana. O cacique, seu pai, foi batizado com o nome de Salvador e a mãe com o nome de Bahia.
O jesuíta avisou que uma expedição estava a caminho dali, desbravando as matas. Os índios estavam preparando grandes festas e danças, para receber os visitantes. Porém o jaguar negro não parava de rondar a taba, em busca de oportunidade para vingar a companheira abatida pela princesa índia. Feira de Santana não imaginava que estava sendo observada pela fera, que se ocultava nas moitas e tinha sempre os seus olhos cintilantes, injetados de ódio, dirigidos à linda princesa índia.
O dia fatal chegou quando Feira de Santana, distanciando-se da taba, foi em busca de flores, para ornamentar a aldeia, em homenagem aos visitantes, que não tardariam a chegar. Rápido, o terrível jaguar pulou sobre a pobre Feira de Santana. Seus gritos foram ouvidos por alguns índios, que partiram em seu socorro e ainda conseguiram matar o jaguar. Porém era tarde demais. Levaram a pobre índia, quase morta, para a taba. Frei Gonsalo, o jesuíta, administrou-lhe os últimos sacramentos. A expedição chegou ainda a tempo de ouvir as últimas palavras de Feira de Santana, e que foram: "Não chorem, não se preocupem, que eu nascerei outra vez".
Seu último sopro de vida foi nos braços de sua mãe Bahia. A bela Feira de Santana partiu para as glebas divinas. Cumpriu, no entanto, a promessa. Nasceu outra vez. Não nasceu mais a princesa índia. Nasceu uma cidade que tem o seu nome... e que é o orgulho da Bahia!... que é um poema plantado no sertão... ela nasceu FEIRA DE SANTANA, a princesa do sertão! A mais linda cidade da Bahia, com esplendor e beleza. Nas calçadas de suas ruas pisam as mais lindas moças do Brasil.
Tive a felicidade de viver dois dias e duas noites em Feira de Santana. Guardo em minha lembrança aquele pequeno espaço de tempo, como uma jóia de inestimável valor. Também guardo em minha lembrança a sua feira, rica em tudo, que parece mais uma reunião de bravos sertanejos, para uma grande comemoração. Vi na grande feira tudo que podia seduzir os olhos e o estômago. Também vi e ouvi os sons plangentes de uma viola, tocada por um menino cego, que parecia um lamento de dor dirigido à bela índia morta. As tão discutidas Noites da Arábia não podem ser mais lindas que as noites de Feira de Santana. Um vento que parece divino sopra o calor, deixando que a temperatura desça. No ar há qualquer cousa de mistério, que nos convida a amar Feira de Santana. Eu dormi envolta nesse mistério e sonhei com a linda princesa índia, Feira de Santana, que me embalava em sua rede e cantava para mim.
Princesa Kee-Kow (contos). KOSNICK, Maria Chiacchio
Usava grandes argolas de ouro, que em conjunto com o seu diadema, de pedras preciosas e penas, davam expressão à sua personalidade sertaneja. Sua saia era longa, feita de um tecido de fibra de bananeira e contas de mulungu. Era querida de toda a tribo. Quando cantava, a sua voz suave e bela atraía os pássaros, com a voz do Uiarapuru. Seu noivo era um príncipe índio, chamado Jiquié. Habitava a muitas luas distante da sua gleba, porém ele vencia as asperezas do sertão, viajando por muitas semanas, para ver a sua amada.
A princesa Feira armava a sua rede na sombra dos umbuzeiros e saboreava seus frutos deliciosos. O vento morno e suave a embalava nas noites maravilhosas e perfumadas do sertão. Naquele tempo não havia seca, porque o sertão não estava desnudo. A mão do homem ainda não tinha decepado as árvores. O sertão era verde como a esperança. Coberto de flores, como um divino jardim. Quando a noite descia, os índios acendiam a grande fogueira, para espantar os mosquitos, as cobras e as onças, e também se aquecerem do frio, que descia com a noite, enquanto uma flauta índia tocava melodiosamente.
Feira costumava ir pelos campos, colher flores. Quando ela viu o primeiro homem branco que pisou naquelas glebas, um padre jesuíta, que estava sendo atacado por um jaguar negro, rápida, atirou uma flecha no coração da fera, matando-a. Era fêmea. O macho, que tudo viu, jurou vingança. Feira levou o padre jesuíta, que se chamava Frei Gonsalo, para a taba. O pajé curou-lhe os ferimentos feitos pela onça. O jesuíta batizou os índios. À Feira acrescentou-lhe o nome de Santana. Passou a chamar-se, pois, Feira de Santana. O cacique, seu pai, foi batizado com o nome de Salvador e a mãe com o nome de Bahia.
O jesuíta avisou que uma expedição estava a caminho dali, desbravando as matas. Os índios estavam preparando grandes festas e danças, para receber os visitantes. Porém o jaguar negro não parava de rondar a taba, em busca de oportunidade para vingar a companheira abatida pela princesa índia. Feira de Santana não imaginava que estava sendo observada pela fera, que se ocultava nas moitas e tinha sempre os seus olhos cintilantes, injetados de ódio, dirigidos à linda princesa índia.
O dia fatal chegou quando Feira de Santana, distanciando-se da taba, foi em busca de flores, para ornamentar a aldeia, em homenagem aos visitantes, que não tardariam a chegar. Rápido, o terrível jaguar pulou sobre a pobre Feira de Santana. Seus gritos foram ouvidos por alguns índios, que partiram em seu socorro e ainda conseguiram matar o jaguar. Porém era tarde demais. Levaram a pobre índia, quase morta, para a taba. Frei Gonsalo, o jesuíta, administrou-lhe os últimos sacramentos. A expedição chegou ainda a tempo de ouvir as últimas palavras de Feira de Santana, e que foram: "Não chorem, não se preocupem, que eu nascerei outra vez".
Seu último sopro de vida foi nos braços de sua mãe Bahia. A bela Feira de Santana partiu para as glebas divinas. Cumpriu, no entanto, a promessa. Nasceu outra vez. Não nasceu mais a princesa índia. Nasceu uma cidade que tem o seu nome... e que é o orgulho da Bahia!... que é um poema plantado no sertão... ela nasceu FEIRA DE SANTANA, a princesa do sertão! A mais linda cidade da Bahia, com esplendor e beleza. Nas calçadas de suas ruas pisam as mais lindas moças do Brasil.
Tive a felicidade de viver dois dias e duas noites em Feira de Santana. Guardo em minha lembrança aquele pequeno espaço de tempo, como uma jóia de inestimável valor. Também guardo em minha lembrança a sua feira, rica em tudo, que parece mais uma reunião de bravos sertanejos, para uma grande comemoração. Vi na grande feira tudo que podia seduzir os olhos e o estômago. Também vi e ouvi os sons plangentes de uma viola, tocada por um menino cego, que parecia um lamento de dor dirigido à bela índia morta. As tão discutidas Noites da Arábia não podem ser mais lindas que as noites de Feira de Santana. Um vento que parece divino sopra o calor, deixando que a temperatura desça. No ar há qualquer cousa de mistério, que nos convida a amar Feira de Santana. Eu dormi envolta nesse mistério e sonhei com a linda princesa índia, Feira de Santana, que me embalava em sua rede e cantava para mim.
Princesa Kee-Kow (contos). KOSNICK, Maria Chiacchio
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